Apreensão de cocaína desaguou em uma série de esquemas, dando o 'start' na maior investigação contra a corrupção do País. A droga chegava ao Porto de Santos e, de lá, seguia para a Europa

Cabo Morales e Sargento Faz, da Policiamento Rodoviário de Araraquara, são dois dos cinco policiais que fizeram a apreensão que materializou o início da investigação da Lava-Jato (Amanda Rocha/ACidadeON)

A corrupção no Brasil, na atualidade, ganhou um sinônimo: Operação Lava-Jato. A investigação de corrupção e lavagem de dinheiro é a maior ofensiva contra desvios que o Brasil já teve. Talvez seja a maior apuração do tipo no mundo, com a prisão de traficantes, doleiros, empresários e políticos. No entanto, o que pouca gente sabe é que a Operação Lava-Jato começou a ser materializada, ainda que com outro foco, em Araraquara, com a apreensão de 698 quilos de cocaína feita por cinco policiais rodoviários do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR). O caso é lembrado em um filme que retrata a história e ressaltado nos créditos do longa-metragem.

A primeira versão da trilogia “Polícia Federal – A Lei é para Todos”, fala sobre o início da Lava-Jato. O filme tem graves erros de veracidade da informação, uma vez que afirma que a apreensão foi feita pela Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. A realidade naquele mês de novembro de 2013 foi um pouco diferente. A investigação era feita pela Força Tarefa do Ministério Público Federal (MPF) e pela PF de Curitiba, que repassou a suspeita do transporte de cocaína à delegacia da PF de Araraquara. “Lembro que passamos para frente, mas, na época, ninguém imagina que tomaria esse rumo”, lembra o delegado da PF, Nelson Edilberto Cerqueira.

A Operação Lava-Jato surgiu porque o MPF buscava, inicialmente, desmantelar quadrilhas lideradas por quatro grandes doleiros brasileiros. Entre eles, Carlos Habib Chater, de Brasília, que possuía uma casa de câmbio e um posto de gasolina. Por ordem do juiz Sergio Moro, ainda pouco conhecido pelos brasileiros, a PF fez escuta nos telefones de Chater. Embora falasse com vários doleiros, o suspeito não citava nomes. A investigação, no entanto, avançou para o tráfico e aquisição de cocaína trazida da Bolívia e Peru. A droga chegava ao Porto de Santos e, de lá, seguia para a Europa. Muito se falava, mas nada se provava.



O Flagrante

A operação seguia de forma escondida e com pouca eficácia, até que as coisas mudassem, no dia 21 de novembro de 2013. O policiamento rodoviário de Araraquara foi avisado pela PF da possível passagem de uma carga com cocaína que havia saído do Mato Grosso. Um cerco foi montado na Rodovia Washington Luís, em Araraquara, para averiguar o caso. A equipe TOR era formada pelo subtenente Valdinei Antônio de Carvalho, o sargento Gilson José Bessegatto, ambos já reformados, o sargento Flávio Henrique Fazan, o cabo Eduardo Alexandre Morales e o soldado Rodrigo Mitsuo Assagra. Eles não sabiam, mas estavam prestes a fazer história.

O ACidadeON/Araraquara conversou com dois desses policiais: sargento Fazan e o cabo Morales. Eles lembram com detalhes da maior apreensão de cocaína feita em anos de patrulhamento nas rodovias paulistas pela equipe. “Não sabíamos quase nada, mas ficamos procurando até encontrar um caminhão com placas do Mato Grosso saindo de um posto. Resolvemos abordar e deu certo”, conta o sargento. O filme lançado recentemente retrata a cena com perseguição e tiros, mas, na verdade, não houve nada disso.

O motorista Ocari Moreira, de 53 anos, afirmou em um primeiro momento que apenas transportava uma carga com palmitos em vidros com seu caminhão particular. Entretanto, segundo os policiais, o homem se mostrou muito nervoso. Pressionado, o suspeito entregou o esquema. Ele disse, finalmente, que havia droga entre as caixas. O filme diz que a cocaína estava em vidros. “Elas estavam em tijolos e pacotes imensos. Começamos a desmontar e ficamos surpresos”, conta o sargento. O motorista foi preso e admitiu que deixaria parte da carga na região de Campinas e o restante seria levado para São Paulo. Na época, o homem se arriscou por R$ 10 mil.

O caso não parou por ai. Já pela delegacia da PF, onde iriam apresentar a ocorrência, os policiais rodoviários desconfiaram de um detalhe. “Ele [motorista] levava três celulares, dois usados, velhinhos, e um muito novo”, conta o Cabo Morales. “Pedimos ao delegado e ele nos deixou atender. Nos passamos pelo motorista, falamos que o caminhão quebrou e que iríamos abandonar a carga. O ‘batedor’ – homem que faz a segurança da carga – se assustou e veio atrás. Quando chegou, foi preso”, lembra o sargento.

No encosto dos bancos do carro o grupo escondia muito dinheiro (Polícia Federal)

No carro, um Golf praticamente novo, estavam duas pessoas: Gilberto Ramos Lopes, morador do Mato Grosso do Sul, e o boliviano Ricardo Semler Rodriguez. Os dois negaram envolvimento, mas o telefone apreendido com eles era o mesmo que fazia as ligações para o motorista da carga com cocaína. Ninguém poderia imaginar mas, dias depois, R$ 200 mil em dinheiro foram encontrados ocultados no carro usado pelo boliviano. “Era um carro novinho, nunca pensamos que esconderia dinheiro”, lembra o sargento Fazan.


Denúncia do MPF em que cita o caso de Araraquara no início da Operação Lava Jato



Muito além da droga

A apreensão foi o ponto de partida para uma série de ações que acarretariam na identificação de um esquema internacional de narcotráfico. A partir do flagrante, foram descobertas cada vez mais pistas, segundo a Força Tarefa da Lava Jato, no Paraná. Depois dela, foi a vez do homem indicado como o dono da cocaína apreendida em Araraquara. Renê Luiz Pereira foi flagrado conversando com outra pessoa, lamentando a apreensão e questionando o trabalho do boliviano. Ele foi indiciado por associação juntamente com os três presos pela PR da cidade.


Investigação apontou o dono da droga. Rene conversou com um doleiro e a rede foi descoberta.

Depois da apreensão em Araraquara, Renê reclama e menciona pela primeira vez o nome de Habib Chater. O homem que somava três décadas de operação no câmbio negro em endereços centrais do Distrito Federal era, de acordo como os procuradores da Lava Jato, o responsável por levantar parte do dinheiro que havia viabilizado o carregamento de entorpecentes. Os fatos reforçaram a denúncia do envolvimento dele com o câmbio ilegal e o tráfico de drogas. Ao mapear as transferências financeiras, as autoridades tiveram uma nova surpresa.

Conversas e mensagens telefônicas interceptadas com autorização judicial indicaram que Habib Chater conversava com outras pessoas encarregadas de converter ativos ilícitos em moedas fortes, entregando-os na Bolívia aos fornecedores de cocaína. Entre eles, conversavam somente por meio de codinomes. Entre eles, havia um homem conhecido como "Primo". Primo, na verdade, era o apelido dado ao doleiro Alberto Youssef. O homem, que já tinha histórico criminal, também teria participado da ação. Diante das conexões, o juiz Sergio Moro mandou prender tanto Chater quanto Youssef em março de 2014.

Yousseff foi o ponto de partida que levaria aos desvios na Petrobras. Depois disso, o enredo da Lava Jato começou a se aproximar cada vez mais do ambiente político. Foi no escritório dele, em São Paulo, que se deu parte da operação financeira com os traficantes. Youssef negociou com o Ministério Público uma delação premiada. Tornou-se réu confesso, entregou empresas, agentes públicos e desvendou o modus operandi do sistema da corrupção na Petrobras. A partir daí, a Lava-Jato tomou rumos impressionantes e avançou pelas camadas mais complexas da esfera política do País.


Denúncia do MPF em que cita o caso de Araraquara no início da Operação Lava Jato



Muito além da droga

A apreensão foi o ponto de partida para uma série de ações que acarretariam na identificação de um esquema internacional de narcotráfico. A partir do flagrante, foram descobertas cada vez mais pistas, segundo a Força Tarefa da Lava Jato, no Paraná. Depois dela, foi a vez do homem indicado como o dono da cocaína apreendida em Araraquara. Renê Luiz Pereira foi flagrado conversando com outra pessoa, lamentando a apreensão e questionando o trabalho do boliviano. Ele foi indiciado por associação juntamente com os três presos pela PR da cidade.



Investigação apontou o dono da droga. Rene conversou com um doleiro e a rede foi descoberta.

Depois da apreensão em Araraquara, Renê reclama e menciona pela primeira vez o nome de Habib Chater. O homem que somava três décadas de operação no câmbio negro em endereços centrais do Distrito Federal era, de acordo como os procuradores da Lava Jato, o responsável por levantar parte do dinheiro que havia viabilizado o carregamento de entorpecentes. Os fatos reforçaram a denúncia do envolvimento dele com o câmbio ilegal e o tráfico de drogas. Ao mapear as transferências financeiras, as autoridades tiveram uma nova surpresa.

Conversas e mensagens telefônicas interceptadas com autorização judicial indicaram que Habib Chater conversava com outras pessoas encarregadas de converter ativos ilícitos em moedas fortes, entregando-os na Bolívia aos fornecedores de cocaína. Entre eles, conversavam somente por meio de codinomes. Entre eles, havia um homem conhecido como "Primo". Primo, na verdade, era o apelido dado ao doleiro Alberto Youssef. O homem, que já tinha histórico criminal, também teria participado da ação. Diante das conexões, o juiz Sergio Moro mandou prender tanto Chater quanto Youssef em março de 2014.

Yousseff foi o ponto de partida que levaria aos desvios na Petrobras. Depois disso, o enredo da Lava Jato começou a se aproximar cada vez mais do ambiente político. Foi no escritório dele, em São Paulo, que se deu parte da operação financeira com os traficantes. Youssef negociou com o Ministério Público uma delação premiada. Tornou-se réu confesso, entregou empresas, agentes públicos e desvendou o modus operandi do sistema da corrupção na Petrobras. A partir daí, a Lava-Jato tomou rumos impressionantes e avançou pelas camadas mais complexas da esfera política do País.

Filme que fala da operação cita no final o nome de Araraquara



Crédito simbólico

Nos créditos finais do filme, a lembrança simbólica: “Agradecimento especial ao Policiamento Rodoviário da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que, no dia 21 de novembro de 2013, por volta das 18 horas, na Rodovia Washington Luís, altura do Km 265, município de Araraquara (SP), prendeu uma quadrilha que transportava 700 quilos de cocaína escondidos numa carga de palmitos. A ação dos policiais militares contribuiu para o esclarecimento do crime e para o início das investigações da Operação Lava-Jato”, esclarece a legenda.

De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), o nome do caso, “Lava Jato”, decorre do uso de uma rede de postos de combustíveis e lava a jato de automóveis para movimentar recursos ilícitos pertencentes a uma das organizações criminosas inicialmente investigadas. Embora a investigação tenha avançado para outras organizações criminosas, o nome inicial se consagrou. Até o mês de agosto de 2017, segundo o MPF, o balanço apontava para 1.765 procedimentos instaurados e 165 condenações contra 107 pessoas envolvidas com o pagamento de propina na ordem de R$ 6,4 bilhões.


Em tempos de "censura" com o jornalismo independente precisamos da ajuda do nosso leitor para nos manter online. Agora você pode apoiar o Amazon Presse através do PIX: 32.688.550/0001-31. Colabore!
Postagem Anterior Próxima Postagem