O filme com 10 indicações ao Oscar que estreia no Brasil em 23 de janeiro.


A 1ª Guerra Mundial não compartilha do mesmo "prestígio" de sua irmã mais nova nos cinemas. Com batalhas em trincheiras e longos momentos de espera e tensão, o conflito ganha uma de suas melhores representações cinematográficas em "1917", filme que estreia em 23 de janeiro no Brasil como um dos melhores de 2019 – e dez indicações ao Oscar.


Através de uma edição sem cortes e em tempo quase real, o diretor britânico Sam Mendes (ganhador do prêmio da Academia por "Beleza americana") aproxima o público da lama dos campos de batalha e da tensão dos soldados. Com uma perspectiva tão próxima dos protagonistas e sem atalhos, é difícil não sentir a aflição de cada uma de suas escolhas.


Essas escolhas, no entanto, aproximam a narrativa um pouco da linguagem de um video game, com sua câmera por cima dos ombros dos heróis e suas fases bem demarcadas. Algo que não é um problema em si, mas que tira um pouco do perigo de vida iminente.


Afinal, até no mais cruel dos games modernos a morte poucas vezes é definitiva.



Faces desconhecidas

"1917" retrata a missão de dois soldados ingleses que devem entrar em território inimigo para levar uma mensagem urgente a uma tropa aliada prestes a cair em uma cilada.


A ausência de grandes astros no lugar da dupla de protagonistas, os britânicos Dean-Charles Chapman ("Game of thrones") e George MacKay ("Capitão Fantástico"), ajuda a criar a atmosfera realista desejada por Mendes.


Mas os jovens atores justificam a fé depositada pelo cineasta com atuações fortes e sensíveis, que dão urgência à situação em que seus personagens se encontram.









Beleza sem cortes



Muitos críticos consideram que o plano sequência que amarra o filme – a opção de usar uma só perspectiva na gravação, para dar a ilusão de que a produção não tem cortes – é um truque desnecessário. Dá para entender.



Em mãos menos capazes, realmente seria. Mas com um nome como o do diretor de fotografia Roger Deakins, ganhador do Oscar por "Blade Runner 2049" (2017) depois de 12 indicações, a ideia trabalha a favor da narrativa.



A câmera do inglês bota o espectador no lugar dos protagonistas, em meio à lama e aos corpos que tomam as trincheiras e dá a dimensão de sua solidão, mesmo em uma carona com aliados.



O resultado são cenas tão belas que parecem higienizar os horrores da batalha, o que prejudica um pouco o próprio realismo que a linguagem adotada tanto quer atingir.






Fim de fase


Com desconhecidos como protagonistas, grandes nomes aparecem através de participações pontuais.


Por mais legal que seja ver Andrew "Padre Gato" Scott ("Fleabag") como um tenente ranzinza ou Benedict Cumberbatch ("Doutor Estranho") como um coronel durão, suas cenas são tão marcantes que pontuam demais a história.


Dessa forma, suas presenças parecem menos naturais e mais algo forçado, quase como o fim de uma fase de video game – reforçando a comparação com os jogos eletrônicos.


Depois de um Mark Strong ("Shazam") ou um Richard Madden ("Game of thrones"), resta apenas ao público aguentar durante a dificuldade a seguir até a próxima cara conhecida.


Mesmo com esses problemas, "1917" chega à corrida do Oscar como um dos favoritos às principais categorias, gabaritado por uma técnica impecável e um olhar sensível de um conflito pouco explorado pelo cinema recente.



É inevitável se perguntar se o mundo realmente precisa de mais um filme de guerra. Mendes e Deakins provam que olhares diferentes ainda justificam sua existência.



Via G1
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