Os indígenas Darlison de Souza Costa, de 30 anos, e Elison da Silva Rodrigues, de 34, tornaram-se professores em letras e língua portuguesa por curso da Universidade do Amazonas (UEA) no município de Autazes, a 113 quilômetros de Manaus.

O mesmo curso, que é mediado por tecnologia, formou mais de 900 alunos e alunas em 30 municípios amazonenses, muito dos quais indígenas, negros e quilombolas.

Em Autazes, a entrega dos diplomas ocorreu na igreja matriz de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus Cristo.

Darlison é da etnia mura, da comunidade Josefa, na zona rural de Autazes; e Elison é da etnia baré, nascido na cidade de Barcelos, no alto rio Negro, a 399 quilômetros da capital.

Os dois nasceram em famílias católicas, mas agora são cristãos protestantes.


Não tive a oportunidade conhecer a religião da minha etnia, mas não tenho problema nenhum com as religiões indígenas, disse Elison.



Testemunha de Jeová, Elison não vê problema com religiões

Trajetória pelos rios

Ele disse que migrou para a região do médio rio Amazonas ainda criança, retornou para o alto rio Negro na adolescência e, quando adulto, passou a morar em Autazes.

A mãe dele, Maria Auxiliadora da Silva, se reconhece indígena, mas o pai, José Arlindo Rodrigues, não.



Mas, o certo é que somos do povo baré. O problema é que fomos colonizados dessa forma: para nos desorganizar material e espiritualmente.



Mesmo professando a fé da denominação Testemunhas de Jeová, Elison disse que respeita e até incentiva as religiões praticadas pelos indígenas, as quais ele denomina de “certos ocultismos”.

Elison disse que aprendeu muito com o curso.


Por mais que eu possua um curso superior, aprendi que não sou nem menos que as outras pessoas que não têm a mesma graduação.

Antes de realizar o curso, ele percebia que pessoas de nível superior com as quais lidava se apresentavam como superiores, e até o tratavam com inferioridade.



Aprendi que ninguém tem mais ou menos conhecimento, o que há, na realidade, são conhecimentos diferenciados, afirmou.


No seu trabalho de conclusão de curso (TCC), Elison pesquisou sobre preconceito linguístico.



Identidade fortalecida

Darlison revela que o curso lhe fez, por meio do TCC, fazer uma viagem sobre a história do seu povo, considerado por ele como uma “etnia guerreira e valente”.



Hoje estou muito feliz, Já chorei de alegria. Saí do curso mais fortalecido da minha identidade indígena, anunciou.


Por isso, para ele, “fazer parte dessa etnia hoje é uma honra. Sou uma pessoa que busca a cada dia conhecer a cultura e os valores dos mura”.

Segundo o novo graduado, disse ainda ter certeza de que “voltar ao que era antes, quando ninguém tinha respeito pelos índios, não vai acontecer. O mais importante agora é continuar lutando”.



Sonhos e planos

Um dos propósitos de Darlison como professor é o de revitalizar e fortalecer nheengatu (língua interétnica originária do tupi que significa “fala bonita”) na comunidade da Josefa, onde moram ao menos 200 famílias. A maioria se reconhece pertencente à etnia mura.



O nheengatu é uma semente para revitalizar a etnia mura, disse.


Quanto ao preconceito, Darlison espera que ele venha a terminar algum dia por força das conquistas políticas e sociais dos povos indígenas. Mas, também entende que as relações entre índios e sociedades brancas foram e serão conflituosas, porque são pessoas que têm visões de mudo muito diferenciadas.



O que devemos fazer é combater o preconceito de cabeça erguida. Não se abater com o que outros pensam de nós, mas combatê-los com altivez, mostrando que somos todos iguais e capazes de construir um mundo melhor e igualitário, afirmou.



Sinais da colonização

Em comum, os dois têm as ancestralidades destroçadas pela colonização a ferro e fogo.

Hoje, essas e outras etnias da Amazônia lutam pelo ressurgimento das suas línguas, culturas e identidades.

O lugar onde eles foram diplomados é permeado de simbolismos da história que prevalece sobre os primeiros povos da Amazônia.

Sobre a cabeça dos formandos há um afresco inspirado nas iconografias católicas, que mostra a família de Maria, com Santa Ana e São Joaquim, e a Santíssima Trindade.




Via BNC

Fotos: Wilson Nogueira/cedidas por cortesia ao BNC Amazonas

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